Devia ter uns dez anos. Encontrei-o parado de pé na cozinha, como se me esperasse. Segurei seu braço:
― Posso te beijar, se quiser?
Ele apenas sorriu.
― Consegue falar como adulto?
Respondeu com uma frase engraçada, imitando um sotaque português. Prossegui com o interrogatório:
― Você é uma figura de sonho?
Com esta pergunta, desapareceu. Procurei-o na escuridão da sala de estar e logo escutei o sussurro:
― Fale mais baixo.
Ressurgiu como um grande vulto disforme e me atraiu para o corredor. Quando voltou a falar, estávamos os dois deitados no chão. Era um recém-nascido.
― Eu sou ― as últimas palavras, balbuciou lentamente, como se eu as colocasse em sua boca ― um cordeiro de deus.
― Mas o que é um cordeiro de deus?
Ele falava, mas não tinha cabeça e nem cicatrizes no pescoço fino de bebê:
― É um imortal na areia.
Não é a primeira vez que ponho um personagem de sonho contra a parede, e ele, como se despertado de um transe, me responde num tom religioso.
24.3.07
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