Estava a moça de óculos escuros acomodada numa mesinha de lanchonete, a atenção mergulhada num emaranhado de menus de um telefone celular quando, das profundezas do cotidiano, emerge um estranho que lhe pede licença para comer o resto de torta que havia deixado sobre a mesa. A referida moça desvia o olhar rapidamente, vê tratar-se de um jovem bem vestido e faz com a cabeça que sim, antes de retornar aos seus menus. Ele senta na cadeira vizinha e, com o garfo descartável, raspa com cuidado a cobertura branca separada no canto do pires. Comenta de passagem, o creme ainda derretido na boca:
― Hmm... sua saliva... ácida, levemente adocicada.
Levanta, despede-se da moça com um beijo no cocuruto e, num fenômeno inverso à sua chegada, desaparece na bruma do dia-a-dia. Ela, sem tomar conhecimento:
― Alô? Desculpe a demora. É que enquanto eu procurava seu telefone, um estrupício inclassificável me tirou a concentração.
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1 comentários:
um evento como este não passaria desapercebido por mim...
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